A Organização Pan-Americana de Saúde alerta para a possibilidade de faltar medicamentos para intubação no Brasil. O Ministério da Saúde (MS) também confirmou estoque crítico no abastecimento do chamado kit intubação e sugeriu o empréstimo entre instituições de saúde – o que já vem ocorrendo. Há problemas em todos os Estados, inclusive no Paraná, onde a reserva de sedativos já é insuficiente.

A declaração foi dada nesta terça-feira (30) pelo secretário de Atenção Especializada à Saúde, Luiz Otávio Duarte, durante audiência na Câmara dos Deputados. O laboratório Cristália, um dos maiores fabricantes de anestésicos no Brasil, também confirmou que não há mais estoques e que a produção não conseguirá suprir a demanda nacional. Faltam insumos e até ampolas.

As reservas dos fabricantes foram requisitadas pelo Ministério da Saúde na semana passada, o que gerou críticas de laboratórios e hospitais privados, que reclamam da burocracia na autorização de importação dos anestésicos.

“Já há algum tempo está sendo feito o empréstimo de medicamentos entre hospitais da linha de frente, independente do plano de contingência”, explica Rangel da Silva, presidente da Federação dos Hospitais e Estabelecimentos de Serviços de Saúde do Paraná (Fehospar). “O problema é que quem tinha pra emprestar já não tem mais, e também quem empresta tem que devolver. O consumo é muito alto.”

Ele aponta a dificuldade em novas compras e também no recebimento pelo Ministério da Saúde, já que o problema é nacional. “Estamos no plano de contingência, há protocolos para substituição dos medicamentos, mas mesmo assim vai começar a faltar. Isso só não ocorreu ainda pois emprestamos até chegar, mas é um problema logístico. Com a demanda que temos, e com o alerta dos fabricantes, pode faltar em breve.”

Outro dificultador é o preço. “Tem medicamento com 1.000 % de reajuste, então, ou não encontra pra comprar ou não tem dinheiro pra comprar, o que pode trazer desiquilíbrio aos hospitais, especialmente os menores.”

Mesmo com o anúncio do governo federal de importações e doações, o problema, segundo Rangel, é o tempo. “Levará no mínimo uns 15 dias e esse tempo nós vamos passar apertados. Até porque, a distribuição do Ministério é suplementar e a indústria farmacêutica não vai ter pra todos se continuarmos nesta demanda. (…) Continuamos com a ocupação em 100% nas UTIs.”

Segundo o Ministério da Saúde, nove Estados já estão sem analgésicos e outros 18 sem sedativos, entre eles o Paraná. No entanto, a Secretaria Estadual de Saúde (Sesa) não confirma a falta e garante que “todos os hospitais que estão no Plano Estadual de Atendimento à Covid-19 estão recebendo medicamentos”.

De acordo com a Sesa, 130 mil kits intubação foram enviados neste fim de semana para hospitais paranaenses; 20 mil para os municípios. “Nenhum paciente está ou ficou desassistido por falta de medicamentos no Paraná.”

Curitiba

Na Capital do Paraná, os hospitais privados confirmam a dificuldade para adquirir novos medicamentos e a prática do plano de contingência para tentar solucionar o problema.

O Hospital Marcelino Champagnat diz que se mobiliza para realizar a importação direta dos medicamentos. “Por esse motivo, o HMC informa nesta quarta-feira (31/3/21) que está realizando apenas cirurgias de emergência, em casos que representem risco à vida.”

O Hospital Universitário Evangélico Mackenzie (HUEM) ressalta a dificuldade na aquisição de bloqueadores neuromusculares “A instituição tem um estoque para mais alguns dias, ainda não houve nenhum prejuízo para pacientes. O hospital, junto às Secretarias de Saúde Municipal e Estadual, está empenhado para que não haja um desabastecimento.”

O Hospital Nossa Saúde afirma que ainda tem estoque, mas não diz pra quantos dias. Porém, destaca a dificuldade na compra dos remédios, em especial rocuronio, propofol, midazolam e ketamin. “Os pedidos ficam pendentes e são faturados parcialmente, sem previsão de entrega.”

A Santa Casa de Misericórdia diz que “o cenário é o mesmo que o apresentado pelo secretário (da saúde, Beto Preto)”.

Presente na reunião em Brasília, o diretor-executivo do Hospital Nossa Senhora das Graças, Flaviano Venturim – presidente da Federação das Santas Casas de Misericórdia e Hospitais Beneficentes do Paraná (Femipa) e também do Sindicato dos Hospitais e Estabelecimentos de Serviços de Saúde do Paraná (Sindipar) – disse que é preciso “dar uma resposta aos hospitais se existe alguma previsão de normalidade dentro dos próximos dias”. Segundo ele, o envio de medicamentos para três ou quatro dias não resolve o problema. “Precisamos ter uma ideia de quando normalizaremos a situação.”

Os hospitais privados de Curitiba já vêm num processo de suspensão dos Pronto Atendimentos (PA) desde o início de março, quando o número de internações por Covid-19 excedeu o limite de leitos.

Solução

O Ministério da Saúde diz que tenta agilizar a importação dos medicamentos por meio da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), além de buscar doações da União Europeia. Enquanto isso, a orientação para os hospitais é criar uma “rede de comunicação” para, em situações de emergência, emprestar os kits intubação uns dos outros.

O secretário de saúde do Paraná, Beto Preto, admite que as reservas estão se esgotando “dramaticamente”. “Nós recebemos alguns agora (27/3), estamos comprando outros e há uma possibilidade de compra no exterior autorizada pela Anvisa. Também estamos pressionando o Ministério da Saúde para que auxilie efetivamente nesse contexto”, enfatiza.

De acordo com ele, a abertura de novos leitos de UTI depende também dos medicamentos, além de profissionais e equipamentos. “Estamos no limite, não apenas no Paraná, mas no Brasil todo. As fábricas não têm conseguido atender toda essa demanda. Mas estamos trabalhando para comprar mais kits.”

A Secretaria de Saúde de Curitiba foi procurada pela reportagem na manhã desta quarta (31), mas no final da tarde informou que não iria conseguir responder aos questionamentos. A justificativa é de que amanhã (1) a Prefeitura entra no esquema de plantão de atendimento, por causa do feriado da Páscoa.

“Este feriado de Páscoa, o resultado disso vai ser catastrófico se não houver consciência da população, se as famílias não deixarem de lado os encontros presenciais neste momento”, alerta o presidente da Fehospar.

Fonte: Mauren Luc - Plural