O primeiro dia do 18º Seminário da Federação das Santas Casas de Misericórdia e Hospitais Beneficentes do Estado do Paraná (FEMIPA), que acontece em Curitiba – e que teve recorde de público e de expositores – reuniu dirigentes, profissionais da saúde e especialistas para discutir gestão hospitalar, inovação tecnológica, segurança jurídica e comunicação institucional, temas considerados estratégicos para o fortalecimento das instituições de saúde no estado. 

Com foco na capacitação de clínicas, hospitais filantrópicos e gestores do setor, o seminário oferece uma programação voltada aos desafios atuais da administração hospitalar. Entre os destaques estão debates sobre gestão eficiente, sustentabilidade financeira, novas tecnologias aplicadas à saúde, inteligência artificial, telemedicina e estratégias para modernização das instituições. A proposta é proporcionar atualização técnica e troca de experiências entre profissionais que atuam diretamente na gestão e operação dos serviços de saúde. 

“O primeiro dia foi dedicado a uma agenda técnica e altamente qualificada, com quatro grandes atividades simultâneas que anteciparam os principais debates do Seminário”, afirmou o presidente da FEMIPA, Dr Charles London.

 

Tecnologia em Saúde

A programação incluiu o pré-evento “Tecnologia na Saúde”, que abordou a transformação digital no setor e o uso de soluções inovadoras para ampliar eficiência, qualidade assistencial e sustentabilidade das instituições.

O primeiro dia do 18º Seminário Femipa consolidou a tecnologia não apenas como uma ferramenta acessória, mas como o pilar central para a sobrevivência e a sustentabilidade das instituições de saúde, especialmente os hospitais filantrópicos. Através de uma série de painéis que reuniram lideranças do setor, o evento em Curitiba mapeou o caminho do analógico ao digital, destacando que a inovação real nasce da mudança de cultura e do foco absoluto na jornada do paciente.

Na abertura da plenária sobre tecnologia, o Dr. Omar Taha, médico radiologista e diretor da Federação Unimed do Paraná, provocou a audiência ao afirmar que “a transformação digital não começa na tecnologia, começa pela inovação”. Utilizando ferramentas de IA em tempo real para sua apresentação, Taha defendeu que a inovação nas instituições deve ser uma cultura top-down (de cima para baixo), fundamentada em um ambiente de liberdade psicológica para as equipes.

“Abordamos elementos fundamentais da transição digital, como inovação, inteligência artificial e a jornada do paciente – temas cruciais para quem atua na linha de frente da saúde hoje”, destacou Taha. Ele reforçou que o hospital do futuro deve integrar dados, sistemas e processos para garantir que o conhecimento clínico seja potencializado pela automação.

O cenário apresentado pelos painelistas é desafiador: com estimativas de que o gasto global com saúde chegue a 25% do PIB até 2050, a eficiência tornou-se urgente. No Brasil, o setor filantrópico enfrenta uma crise aguda, com cerca de 80% das instituições em dificuldades financeiras e apenas 18% com estratégias digitais bem definidas.

Para Marcelo Caballero, o nó crítico não reside apenas na falta de verbas, mas na gestão do que se investe: “Mais do que apenas captar recursos, o grande desafio dos hospitais filantrópicos é a eficiência na aplicação desse capital. Não basta adquirir a primeira tecnologia disponível; é preciso garantir que haja processos, treinamento e, acima de tudo, aderência à realidade da instituição”, afirmou Caballero. Ele ainda defendeu a necessidade de incentivos governamentais para que pequenos hospitais acessem tecnologias de ponta, evitando o isolamento de dados.

A Inteligência Artificial (IA) foi tratada como a “revolução silenciosa” do setor. De acordo com dados apresentados por Ramón Martins Maia, Diretor de Produto e Performance da MV, o mercado de IA em saúde deve movimentar US$ 29 bilhões em 2026. Para Maia, a tecnologia deve servir para devolver o tempo ao profissional de saúde, reduzindo erros por fadiga e priorizando o raciocínio clínico.

“A transformação digital na saúde deixou de ser uma questão de investimento para se tornar um fator de sobrevivência e perpetuidade das instituições. No entanto, tecnologia pela tecnologia não gera impacto; o diferencial está em entender profundamente a jornada do paciente e os processos operacionais. Na MV, nosso papel é pavimentar essa estrada com inovação – como IA e blockchain – mas sem nunca esquecer o calor humano”, pontuou Maia.

O painel que contou com Marcelo Dallagassa (Unimed Paraná/PUC-PR) reforçou o conceito dos “5 Ps” da medicina moderna: Preditiva, Preventiva, Personalizada, Participativa e Pertinente. O consenso entre os especialistas é que a fragmentação dos serviços é o maior entrave para o setor. A solução passa pela governança de dados robusta e pela migração de sistemas isolados para redes monitoradas continuamente através de Registros Eletrônicos de Saúde (RES).

O 18º Seminário Femipa segue debatendo temas como ciclo de receitas, compras e integração de redes, posicionando o Paraná como centro das discussões sobre a modernização da gestão hospitalar no Brasil.

 

Encontro de Assessores de Comunicação da FEMIPA

Também no dia 17 aconteceu o 12º Encontro de Assessores de Comunicação da FEMIPA, consolidado como um dos principais espaços de troca de experiências sobre comunicação institucional na saúde, relacionamento com a imprensa e estratégias de posicionamento das entidades hospitalares. Sob coordenação da jornalista e assessora de imprensa da Femipa, Ceres Battistelli, o painel reuniu profissionais de comunicação de diferentes instituições para debater os desafios atuais da área. Participaram Dieisson Medeiros, gerente de marketing e endomarketing do Grupo Caron; Ana Paula Druszcz, gerente de Experiência do Cliente, Marketing e Atendimento do Complexo de Saúde do Grupo Marista; Narley Resende, assessor de imprensa do Ministério da Saúde; Themys Cabral, assessora de comunicação da Secretaria Municipal de Saúde de Curitiba; a jornalista premiada Kátia Brembatti, ex-presidente da Abraji, docente da Universidade Positivo e vencedora do Prêmio Esso de Jornalismo; e Eduardo Scola, apresentador da RICTV. O grupo abordou o cenário da comunicação e da assessoria de imprensa em um contexto de rápidas transformações, com destaque para o avanço da inteligência artificial e as estratégias de gestão de crise.

“Vivemos um momento em que tudo é gravado e transmitido. Em situações de crise, é fundamental dizer a verdade, com transparência e respeito à imprensa, que cumpre o papel de informar. É preciso avaliar como o fato impacta a confiança das pessoas, mobiliza o público e se posiciona nos diferentes canais”, destaca Ana Paula Druszcz.

Além das palestras, foram apresentados os cases finalistas do 8º Prêmio de Melhores Práticas. A gerente de comunicação do Hospital Erasto Gaertner, Carolina Piva,  apresentou os cases “Corrida do Erastinho (The Hardest Run): uma plataforma de confiança que transforma público em comunidade” e “Risoto Solidário: 10 anos de comunidade  financiamento  recorrente”; Flavia Correa Perini, do Hospital Evangélico de Londrina, com o case “Comunicação Estratégica em Ambiente Hospitalar: da Publicidade à integração com os processos assistenciais”; e Patrícia Canuto da Silva, do Hospital Angelina Caron, que apresentou o case O Robô opera e a comunicação Conecta.

 

Fórum de Direito da Saúde 

No 11º Fórum de Direito da Saúde da FEMIPA, a programação reuniu especialistas para debater os principais desafios jurídicos enfrentados pelas instituições hospitalares. Um dos destaques foi a atuação pericial em processos envolvendo a atividade médico-hospitalar, com ênfase na importância de prontuários bem elaborados, consistência das informações e rigor técnico na análise dos casos. Quem apresentou o tema foram as médicas peritas Dra. Camila Girardi Fachin e Dra. Fabiana Iglesias de Carvalho.

Também foi abordado o crescimento de golpes envolvendo serviços de saúde. O delegado Emmanoel David alertou para o uso de tecnologias como inteligência artificial em fraudes cada vez mais sofisticadas, reforçando a necessidade de prevenção, segurança da informação e conscientização de profissionais e pacientes.

As juízas Ana Carolina Morozowski e Rafaela Mari Turra trataram dos impactos da Instrução Normativa Conjunta nº 253/2025, destacando a importância de protocolos bem definidos e do preenchimento correto de relatórios médicos para apoiar decisões judiciais.

Encerrando o fórum, o advogado Vinicius Yudi Aihara apresentou a governança jurídica hospitalar como um elemento estratégico para as instituições, indo além do cumprimento de normas e atuando de forma preventiva na gestão de riscos, na organização de processos internos e no fortalecimento da tomada de decisão.

 

Workshop SESA

A programação do dia contou ainda com o Workshop promovido pela Secretaria de Estado da Saúde (SESA), com foco na instrução de convênios públicos, abordando novos modelos de parceria, regras atualizadas e prestação de contas, tema essencial para hospitais que atuam com recursos públicos. A palestrante foi a Chefe da Divisão de Convênios SESA-PR, Flávia D’Aquino.