Um projeto pioneiro de telemedicina está estruturando uma rede integrada para o diagnóstico e o cuidado de recém-nascidos com cardiopatias congênitas no Paraná, conectando UTIs neonatais regionais a especialistas em cardiologia pediátrica e qualificando, em tempo real, a tomada de decisão clínica.
A iniciativa do Hospital Pequeno Príncipe — o maior e mais completo hospital pediátrico do Brasil —, financiada pelo Governo do Estado do Paraná, por meio da Secretaria de Estado da Saúde (Sesa), utiliza tecnologia para reorganizar o fluxo assistencial e fortalecer a regionalização da saúde.
A proposta se insere em um contexto de alta relevância em saúde pública. Em cada mil crianças que nascem no Brasil, dez apresentam alguma cardiopatia congênita — cerca de 30 mil novos casos por ano, segundo o Ministério da Saúde — e aproximadamente 40% desses bebês precisam de cirurgia ainda no primeiro ano de vida. Essas condições estão entre as principais causas de mortalidade neonatal no país.
No Paraná, entre 2015 e 2024, as cardiopatias congênitas estiveram associadas a 9,7% das mortes de crianças menores de 1 ano, evidenciando a necessidade de estratégias estruturadas para diagnóstico e tratamento precoce.
Nesse cenário, o Bate-Bate Coração propõe um modelo assistencial baseado em rede, com integração entre serviços, definição de fluxos e fortalecimento da regulação clínica. Por meio de teleconsultorias em tempo real, equipes médicas de diferentes regiões discutem casos com especialistas do Hospital Pequeno Príncipe, com suporte à interpretação de exames, definição de condutas e elaboração de planos terapêuticos mais assertivos.
Mais do que apoiar diagnósticos, o programa qualifica a jornada do paciente. Ao ampliar a resolutividade local e organizar os critérios de encaminhamento, o modelo torna mais preciso o momento de transferência para centros de alta complexidade, evitando deslocamentos desnecessários e garantindo que cada paciente seja direcionado conforme a gravidade e a necessidade assistencial.
O projeto também estrutura uma linha de cuidado ao cardiopata congênito no estado, articulando diagnóstico, acompanhamento e encaminhamento dentro da rede. Entre os pilares estão a implementação de protocolos clínicos, o suporte técnico contínuo às equipes regionais e a atuação de uma sala de situação dedicada à teleconsultoria no Hospital Pequeno Príncipe.
Segundo o diretor-corporativo do Complexo Pequeno Príncipe, José Álvaro Carneiro, a iniciativa responde a uma demanda crescente por qualificação do cuidado neonatal especializado. “O impacto da iniciativa se insere em um cenário de alta demanda. O Bate-Bate Coração foi desenvolvido para oferecer suporte remoto qualificado a uma parcela desses casos, promovendo um cuidado mais ágil, seguro e integrado, com apoio institucional e financeiro da Sesa”, afirma.
Além da assistência, a formação contínua das equipes é um eixo estratégico do projeto. Desde o início das atividades, as ações formativas — incluindo capacitações em ecocardiografia e aulas temáticas — somam 246 participações, envolvendo 174 profissionais das UTIs neonatais participantes, contribuindo para a qualificação técnica e a autonomia progressiva dos serviços.
Os resultados assistenciais também demonstram a efetividade do modelo. Desde o início das teleconsultorias, no segundo semestre de 2025, já foram realizadas mais de 700 discussões de casos clínicos, com avaliação de 205 recém-nascidos e participação de 49 profissionais. No período, 32 pacientes, cerca de 16%, foram diagnosticados com cardiopatia, dos quais quatro precisaram ser transferidos. O programa também apoiou o encaminhamento de recém-nascidos com outras comorbidades, ampliando seu impacto na atenção neonatal.
Com investimento inicial de R$ 312 mil para implantação e aporte anual de aproximadamente R$ 1,4 milhão para custeio, com duração prevista de dois anos, o Bate-Bate Coração demonstra viabilidade para replicação em outras regiões do país, ao combinar tecnologia, qualificação profissional e organização em rede.
A primeira fase envolve cinco hospitais com UTI neonatal — localizados em Santo Antônio da Platina, Umuarama, Paranavaí, Irati e Francisco Beltrão —, selecionados estrategicamente para fortalecer a regionalização da assistência e ampliar o acesso ao cuidado especializado.
Para o secretário de Estado da Saúde, Beto Preto, o projeto representa um avanço na organização da rede pública. “O projeto busca fortalecer a regionalização da assistência e o uso inteligente da tecnologia para ampliar o acesso a um atendimento especializado, humanizado e resolutivo. Já foram destinados R$ 3 milhões para cinco hospitais, mas a iniciativa será ampliada para outras instituições. Estamos investindo para que os bebês cardiopatas sejam atendidos com mais rapidez, segurança e qualidade em qualquer região do Paraná.”
Com uma equipe dedicada, tecnologia de ponta e acolhimento humanizado, o Hospital Pequeno Príncipe reafirma seu compromisso com o diagnóstico precoce e o tratamento integral das cardiopatias congênitas, contribuindo para ampliar o acesso à saúde e a qualidade de vida de crianças em todo o país.
A instituição é um dos principais centros brasileiros em cardiologia pediátrica, com estrutura para atendimento desde os primeiros dias de vida. O Serviço de Cardiologia realiza consultas, exames diagnósticos e tratamentos de alta complexidade, incluindo cirurgias cardíacas e transplantes.
O Serviço de Cirurgia Cardiovascular é referência nacional, especialmente em procedimentos em bebês com até 30 dias de vida. Em 2025, foram realizadas 598 cirurgias cardíacas, sendo 92 em recém-nascidos com menos de 1 mês de vida, além de 12 transplantes de coração e 34 transplantes de válvulas cardíacas. O Hospital também foi responsável, há 20 anos, pelo primeiro transplante cardíaco pediátrico de sucesso no Paraná.
Entre os diferenciais estão o Serviço de Eletrofisiologia, pioneiro no país; o Serviço de Hemodinâmica, referência em procedimentos minimamente invasivos; e o Serviço de Ecocardiograma, exame detalhado e não invasivo. A estrutura inclui ainda UTI especializada em cardiologia e equipe multiprofissional altamente capacitada para atender a população infantojuvenil.
